quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Na Estrada - Felícia Ferreira

Era tarde da noite quando entrei naquele ônibus com destino ao Maranhão. Lembro-me bem daquela viagem a qual conheci o meu doce bem-querer. Eu estava sentado na poltrona 14 ao lado de um moleque que não ficava quieto. Uma hora ele pedia passagem porque queria ir ao banheiro, na outra já era para pegar a mochila e quando não, roncava feito leitão. Já impaciente levantei-me para trocar de lugar, foi nesse momento que avistei duas poltronas vazias, logo pensei “Estou com sorte, vou poder até deitar!”.

Como todos já sabem alegria de pobre dura pouco. Pouco demorou e apareceu a ocupante de uma das poltronas. Fiquei sem jeito, confesso, pedi desculpas e perguntei se o outro lugar estava ocupado e se eu poderia ficar ali. Foi quando ela deu um sorriso de canto e com uma voz irônica me respondeu “Oh neh? E tem jeito? Você já está ai agora fique”. Meio encabulado com aquela situação percebi naquela brutalidade o tão nordestina que aquela moça era. Me deparei a observa-la.. era uma moça mulata um tanto queimada do sol,  de cabelo longo e escuro, meio magrinha e com um sinal preto quase em forma de coração na mão direita. Meus olhos se detiveram naquele sinal, minha mente percorreu em lembranças de um alguém a quem muito eu tinha amado.


O ônibus seguiu viagem até que por volta das 4 horas da tarde chegamos ao destino final, Imperatriz do Maranhão. Eu nunca havia descido de um ônibus com tanta ansiedade e alegria como naquele dia, peguei as minhas malas, levantei a cabeça aos céus e agredi a Deus por ter chegado bem, e agora ali estar com a minha família e minha filha.. a tal moça marrenta da poltrona ao lado, era ela a minha filha, Terezinha. 

Felícia Ferreira


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